Discos para descobrir em casa – ‘Erasmo Carlos e Os Tremendões’, Erasmo Carlos, 1970 | Blog do Mauro Ferreira

Discos para descobrir em casa – ‘Erasmo Carlos e Os Tremendões’, Erasmo Carlos, 1970 | Blog do Mauro Ferreira


DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Erasmo Carlos e Os Tremendões, Erasmo Carlos, 1970

♪ Em 1970, Erasmo Carlos estava à beira de achar o caminho que seguiria com status após o fim da Jovem Guarda. Sexto álbum da carreira do artista carioca, Erasmo Carlos e Os Tremendões flagrou o cantor e compositor em momento de transição quando o LP foi lançado em maio daquele ano de 1970 pela RGE.

Esse LP foi o último disco de Erasmo na gravadora na qual o artista iniciara discografia solo há então exatos seis anos, em maio de 1964, com a edição de single com duas músicas, Jacaré e Terror dos namorados, da então recém-aberta parceria de Erasmo com Roberto Carlos.

Na foto da capa do LP de 1970, clicada por Branca, Erasmo adotou pela última vez em disco o visual de galã rústico da Jovem Guarda, movimento que encabeçara entre 1965 e 1968 ao lado de Roberto Carlos e de Wanderléa.

Incluído entre as 12 músicas do álbum, o samba-rock Coqueiro verde – assinado por Erasmo com Roberto e composto com inspiração na musa de Erasmo, Sandra Sayonara Esteves (1946 – 1995), a Narinha – fez sucesso e apontou o caminho da discografia do artista.

Esse caminho seria efetivamente seguido a partir do cultuado álbum seguinte, Carlos, Erasmo (1971), o primeiro feito pelo cantor com visual hippie, já na Philips, gravadora com o qual Erasmo assinara contrato ainda em 1970 na sequência da edição do álbum Erasmo Carlos e Os Tremendões.

Pioneiro do rock brasileiro, Erasmo Esteves – carioca nascido em 5 de junho de 1941 e criado no bairro da Tijuca, onde conheceu futuros ídolos como Jorge Ben Jor e Tim Maia (1942 – 1998) – se iniciou na música ainda adolescente e, em 1958, integrou efêmeros conjuntos como Os Sputniks e The Boy of Rock.

Como membro de uma banda juvenil, The Snakes, Erasmo debutou no mercado fonográfico em 1960, três anos antes de gravar discos como crooner do conjunto Renato e seus Blue Caps. Com a construção do reino pop da Jovem Guarda em 1965, Erasmo ganhou fama e fãs como popstar brasileiro, sendo que, da alardeada fama de mau, o cantor apelidado de Gigante gentil sempre teve somente a fama.

Nesse universo pop juvenil, Erasmo Carlos encarnou o Tremendão e foi a esse epíteto que o artista aludiu no título do álbum Erasmo Carlos e Os Tremendões e também no nome da banda com a qual fez o disco lançado em 1970, mas gravado em 1969 com arranjos do maestro Chiquinho de Moraes e os metais do conjunto RC-7.

Das 12 faixas do disco, três já tinham sido previamente lançadas em 1969. A primeira aparecer, em single editado em maio daquele ano de 1969, foi a bela e existencialista canção Sentado à beira do caminho, hit blockbuster que devolveu a Erasmo um sucesso das proporções da época da Jovem Guarda. Roberto fez a canção e Erasmo a burilou.

Na sequência, em single de dezembro de 1969, surgiu outra canção da dupla, Vou ficar nu para chamar sua atenção, tema da trilha sonora do então ainda inédito filme Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa (1970).

Nesse segundo single, Erasmo também apresentou a gravação de Aquarela do Brasil (Ary Barroso, 1939) – samba-exaltação lançado 30 anos antes em outra era da música brasileira – que fizera em tons pálidos para a trilha do mesmo filme estrelado pelo Tremendão com Roberto e Wanderléa.

Dentre as nove reais novidades do repertório do álbum Erasmo Carlos e Os Tremendões, havia o samba-rock Estou dez anos atrasado (Erasmo Carlos e Roberto Carlos) – do bandeiroso verso “Eu quero começar de novo” – e flerte com o universo psicodélico da época ao fim da gravação de Espuma congelada (Piti, 1969), música lançada no ano anterior, sem repercussão, pela cantora Clara Nunes (1942 – 1983).

Fora da seara autoral, Erasmo reviveu no disco a ternura de Teletema (Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, 1969) – sucesso do ano anterior na voz de Regininha – e, no mesmo clima, deu voz a uma canção, Gloriosa, composta por Sérgio Fayne e letrada com imagens cinematográficas por Vitor Martins, compositor paulista que ganharia projeção a partir de 1974 como o parceiro letrista de Ivan Lins.

A abordagem de Saudosismo (Caetano Veloso, 1968) aproximou Erasmo Carlos do universo da já solidificada MPB e, não por acaso, o cantor gravaria no álbum seguinte samba inédito de Caetano Veloso, De noite na cama (1971), marco da virada estilística do artista.

Esnobado pela turma da Bossa Nova, mas avalizado pelos mentores da Tropicália, Erasmo se permitiu gravar no álbum de 1970 música que revivia a temática dos carrões da Jovem Guarda, Jeep (H. Denis e Vitor Martins), e tema instrumental (raridade da parceria de Erasmo com Roberto) que podia se enquadrado no universo musical da Pilantragem, até pelo título espirituoso A bronca da galinha (Porque viu o galo com outra).

Na sequência do disco, a canção Menina (Ângelo Antonio, Carlos Imperial e Adriano, 1970) reconectou Erasmo com o romantismo pueril da Jovem Guarda, mas o arranjo encorpado do maestro Chiquinho de Moraes já sinalizou que o caminho do cantor já era outro.

De fato, a discografia de Erasmo Carlos atingiria ponto de maturação nos sequenciais álbuns dos anos 1970. Discos como Sonhos e memórias 1941 – 1972 (1972), 1990 – Projeto Salva Terra! (1974), Banda dos Contentes (1976) e Pelas esquinas de Ipanema (1978), além do já citado Carlos, Erasmo (1971 ), solidificaram o caminho desse cantor que, após revisionista disco de duetos, Erasmo Carlos convida… (1980), atingiu sucesso massivo a partir do álbum Mulher (1981).

Por conta desse sucesso de massa, Erasmo gravou álbuns regularmente ao longo dos anos 1980, mas amargou injusto ostracismo na década de 1990. Sem jamais abandonar a estrada, o cantor ensaiou volta com o álbum Pra falar de amor (2001) e, ao abrir a gravadora Coqueiro Verde Records, recuperou o fôlego criativo a partir do álbum Rock’n’roll (2009) e, desde então, tem permanecido idolatrado como lenda viva do rock do Brasil, mas sem olhar demasiadamente para o passado glorioso.

Tanto que, no último (primoroso) disco de músicas inéditas, …Amor é isso (2018), o artista reiterou o vigor jovial da discografia e carimbou o êxito de caminhada de muito mais altos do que baixos.

E foi em 1970, justamente a partir do transitório álbum Erasmo Carlos e Os Tremendões, que Erasmo Carlos vislumbrou o rumo certo a seguir e foi adiante, sem ficar sentado à beira do caminho.



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