Sérgio Mendes comenta recordes nos EUA em 60 anos de carreira: ‘Não foi só jogada de marketing’ | Música

Sérgio Mendes comenta recordes nos EUA em 60 anos de carreira: ‘Não foi só jogada de marketing’ | Música


O pianista de 79 anos saiu direto de Niterói (RJ) para o quarto lugar do hot 100 da revista americana “Billboard”. Foram duas vezes no top 4: em 1983, com “Never Gonna Let You Go”; e 1968, com “The Look of Love”.

Em entrevista ao G1 (ouça no podcast abaixo), Mendes comentou esses e outros feitos nos Estados Unidos, onde mora desde 1964.

Ele falou das várias parcerias em quase 60 anos de carreira, da quarentena com a família em Los Angeles e de seu álbum duplo “The Key of Joy”, lançado em fevereiro.

Nesta semana, o G1 conta as histórias dos maiores hits do Brasil no exterior. E de seus compositores. Quais as músicas brasileiras que bombaram nas paradas da Europa e dos EUA?

G1 – Começando com o conceito do álbum ‘The Key of Joy’. Como o senhor chegou a ele?

Sérgio Mendes – A ideia de colaborar com outros artistas é uma coisa que eu já venho fazendo. Então, esse disco foi gravado metade no Brasil e a outra metade aqui em Los Angeles. Meus convidados foram pessoas que você conhece, músicos e compositores que eu gosto há muitos anos: João Donato, Hermeto Pascoal, Guinga.

Tenho também colaborações com gente nova, como a Sugar Joans, minha afilhada. O pai dela é o Joe Pizzulo, que cantou em “Never Gonna Let You Go”. Mas no fundo, no fundo, é “no tom da alegria”, música brasileira com participações de músicos daí, daqui, Pretinho da Serrinha na percussão.

G1 – E outras participações internacionais, como do Will.i.am, do Common?

Sérgio Mendes – Eu já venho fazendo essa coisa de usar os ritmos brasileiros junto com o rap. Tenho feito isso desde que fiz um disco com o Black Eyed Peas, com o Will.i.am. É uma coisa que eu gosto muito, então por isso eu convidei o Common. Ele é uma espécie de guru do rap aqui. É um cara muito legal, muito musical. Ele adora a música brasileira.

Então, é essa troca entre músicos e cantores mostrando a diversidade da nossa música, os vários ritmos. É uma coisa bem internacional e, ao mesmo tempo, tem essa diversidade de estilos.

G1 – Além do álbum de inéditas, há um documentário a ser lançado. Como é o filme? O senhor lançou também uma coletânea, né?

Sérgio Mendes – O documentário não saiu até agora, por causa da pandemia. Deve sair até o fim do ano ou no início do ano que vem. Ficou muito legal. Foi feito por um diretor que fez o do John Coltrane [“Chasing Trane: The John Coltrane Documentary”]. O nome dele é John Scheinfeld.

É com depoimentos de músicos aí do Brasil… Aliás, eu esqueci do nosso Carlinhos Brown também. Ele é meu querido amigo e compositor. Eu não posso me esquecer dele. Ele está sempre comigo desde os anos 80, quando nós fizemos um disco brasileiro.

Mas também resolveram lançar [um álbum com] o meu catálogo, de coisas mais antigas com quase 60 anos de música, né? Então, a ideia foi essa, mas infelizmente com esse negócio de pandemia a gente não pode sair para tocar, fazer shows. Eu estou confinado em casa, como todo mundo.

Sérgio Mendes chegou duas vezes ao quarto lugar do top 100 da revista americana ‘Billboard’, um recorde para brasileiros, com ‘The Look of Love’ (1968) e ‘Never gonna let you go’ (1983) — Foto: Divulgação

G1 – O senhor já botou 14 músicas no top 100 americano, quatro delas dos anos 80 e dez dos anos 60. E foram duas vezes no quarto lugar. Quem mais chegou perto do topo dentre os brasileiros foi o senhor. O senhor liga para paradas?

Sérgio Mendes – Claro, naturalmente. É o espelho do que está acontecendo com o seu trabalho. Mas eu não faço disco pensando nisso, faço disco pensando no que eu quero fazer com total liberdade. Eu sempre tive. Nunca segui fórmula nenhuma nem nada disso.

Eu faço o que estou sentindo no momento. Quando eu encontro, por exemplo, um Pretinho da Serrinha, um músico que eu adorei trabalhar, um cara jovem. Eu adoro esse tipo de encontro de diferentes gerações, de diferentes culturas. Então, meu trabalho tem sido bastante sobre isso.

G1 – O senhor se lembra da primeira vez nos anos 60 que apareceu na parada da ‘Billboard’? Qual foi a sensação?

Sérgio Mendes – Lembro, nos anos 60. A sensação é maravilhosa quando você ouve, de repente, a sua música no rádio pop americano. Você vê seu nome nos charts depois. Entra no top 10, no top 5. Uma depois da outra… É uma sensação muito boa. Eu sinto isso quando vai bem [nas paradas] do mundo inteiro.

G1 – Para os mais novos, quando se fala do seu nome, muitos lembram do Black Eyed Peas. O senhor pensa que esse trabalho com eles te apresentou para outras gerações?

Sérgio Mendes – Com o negócio do Black Eye Peas, o Will que veio até a minha casa, falou que era fã, que ouvia minha música desde garoto. Eu gostei muito dele, nos tornamos amigos. Aconteceu por meio desses encontros assim, que não foram programados, mas que deram certo.

“Minha vida é muito feita por esses encontros, seja com Frank Sinatra, com Will.I.Am. Eu sou anti fórmula. Eu sigo muito a minha intuição e sou muito curioso. E essa curiosidade que me leva a isso, a encontrar essas pessoas e ter essa troca musical.”

Sérgio Mendes — Foto: Divulgação/Katsunari Kawai

G1 – O senhor gosta do rótulo de world music?

Sérgio Mendes – Tudo bem falar “música mundial”. Hoje, poderia falar “global music”, que é uma coisa mais… A música é universal mesmo, eu sempre acreditei nisso. Eu quando estava começando no Brasil eu tocava Tom Jobim, ouvia Charlie Parker, ouvia Nat King Cole e ouvia Horace Silver. Então, a música é universal mesmo. É essa coisa linda que é a música. Esses títulos que vão surgindo, enfim. Antigamente, se falava de easy listening. Lembra disso, ou não?

Sérgio Mendes – [Risos] Essas coisas vão sempre se transformando. Mas são rótulos. Eu acho que o caminho é você seguir a tua intuição. Gostar do que você faz, curtir e ter um entusiasmo que não pode parar. E o aprendizado de sempre. Você trabalha com músicos do mundo inteiro, você tem a oportunidade de trocar ideia, de aprender coisas novas. É isso que eu gosto.

G1 – Tem gente que acha pejorativo esse rótulo de easy listening.

Sérgio Mendes – Ah, eles vão botando rótulo em qualquer coisa. Enfim, eu nunca me preocupei com isso, não, para te dizer a verdade. Vão ter sempre que se referir ao que você faz e ter um nome. Daí chamam disso, chamam de aquilo…

Nelson Motta fala dos 50 anos da carreira de Sérgio Mendes

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G1 – Como é sua relação com o piano? Nessa quarentena, o senhor tem tocado no seu dia a dia?

Sérgio Mendes – O dia a dia virou uma coisa surrealista. Ninguém estava esperando isso, essa pandemia, essa tragédia pegou todo mundo de surpresa. Então, os shows só vou fazer no ano que vem. De vez em quando eu vou no piano, começo a escrever uma música, mas eu não tenho nenhum plano… Eu estou mais ou menos contemplando o que está acontecendo e vivendo o dia a dia, como todo mundo. É horrível, porque você fica isolado. Naturalmente, você fala pelo telefone com as pessoas, mas já estou em casa há mais de quatro meses sem sair.

G1 – E o que o senhor tem feito para passar o tempo?

Sérgio Mendes – Ah, filmes, livros, discos… Conversa pelo telefone. Hoje você tem o Zoom que você vê a pessoa do outro lado. Tem coisas que a tecnologia ajudou muito com essa distância, né? Eu consigo falar com quem está no Brasil, ver pela tela. Eu faço isso e procuro sair o mínimo possível, usar máscara e torço para inventem essa vacina rapidinho.

G1 – Com quem o senhor está passando a quarentena?

Sérgio Mendes – Estou com minha mulher, que se chama Gracinha Leporace. Ela é cantora. Uma excelente cantora, canta no disco inteiro, sempre está nas minhas gravações. Já estamos juntos há 50 anos mais ou menos.

Temos filhos aqui. Nosso filho Thiago, que tem 26, está aqui confinado com a gente. O outro filho com a Gracinha, que se chama Gustavo, está casado. Tenho outros filhos que moram aqui em Los Angeles. A gente, graças a Deus, tem isso, faz companhia um ao outro. O confinamento sozinho deve ser um horror, né? Eu tenho essa sorte de ter minha mulher, meus filhos, meus netos… A gente se fala todo dia por telefone e vai tocando a vida.

Sérgio Mendes — Foto: Katsunari Kawai

G1 – Tendo trabalhado tanto com cantoras nas suas músicas, qual sua opinião sobre uma nova safra de cantoras brasileiras como Anitta, Ludmilla, Pabllo Vittar e Iza?

Sérgio Mendes – Vou te falar a verdade. Eu conheço muito pouco para dar alguma opinião. Eu vejo de vez em quando na TV, me mandam muita coisa, mas eu realmente não conheço bem o trabalho delas. As pessoas que estou mais ligado do Brasil são essas que eu já te falei, que eu gosto muito, e que participaram do CD. O Carlinhos Brown, conheci o filho dele, que é um amor, o Chico Brown.

O Pretinho da Serrinha me apresentou ao sobrinho dele, que tem 11 anos e é um amor, percussionista maravilhoso. Quando vou Brasil, tenho a chance de conhecer esse pessoal todo. Hoje, você pode mandar takes [gravações] pra aqui e pra lá, mas é importante da experiência de gravar um pouco no Brasil e um pouco aqui.

G1 – Falando com alguém que esteve tantas vezes nas paradas… O senhor acompanha os rankings da Billboard hoje? Tem noção do que está tocando, gosta de se manter atualizado, mesmo que seja pelos filhos, pelos netos?

Sérgio Mendes – Escuta, eu assino “Billboard”, naturalmente. Então, eu estou sabendo o que está acontecendo. Mas eu não ouço muito. Mas você tem noção do que está acontecendo, do que está no chart. Mas eu não fico fuçando atrás disso, não é por aí pra mim.

Eu começo a ouvir música clássica. De repente, me dá vontade de ouvir Villa-Lobos, me dá vontade de ouvir Stravinski. Então, adoro ouvir discos antigos de jazz, composições do Tom Jobim…

G1 – O senhor ajudou muito a fazer com que a música brasileira fosse ouvida fora daqui. Qual a percepção, hoje, que quem é de fora tem da música brasileira?

Sérgio Mendes – Sempre existiu e existe esse interesse. As pessoas ouvem como uma música diferente. E, realmente, é uma música diferente das outras músicas populares de outros países. É uma visão mundial.

“Hoje, você vê a influência de reggaeton, que de repente é o ritmo que está na moda, que o pessoal gosta de dançar. Então, tem essas coisas. Mas com a música brasileira, acho que a diferença foram as grandes melodias que você lembra. Não foi só um ritmo, só uma jogada de marketing.”

Foi um negócio de grandes canções. Eu acho que é isso que diferencia e matem esse sucesso até hoje. Você toca qualquer dessas músicas e as pessoas reconhecem e apreciam.



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